O charme
da tatuagem
marca para sempre Jovens ansiosos por se afirmar aderem aos
milhares a essa mania milenar
Por Solange Barreira
Tatuagem nunca esteve tão na moda. É impossível
ir a uma praia e não encontrar um golfinho estampado
na coxa de uma garota, ou o tradicional dragão no braço
de um surfista. Mesmo sem estimativas concretas, os tatuadores
brasileiros confirmam que a procura tem aumentado a cada verão.
"A corrida aos estúdios começa em setembro,
quando o movimento quase dobra", comprova a tatuadora paulista
Cláudia Clauiano, a Macá, 14 anos de profissão.
E esse boom é mundial. Nos Estados Unidos, contam-se
mais de 40 milhões de pessoas adeptas do tal fetiche.
Na Europa, o aumento da demanda deu origem a uma nova disciplina
acadêmica, a Psicologia da Tatuagem, ensinada nas universidades
de Milão e Roma. Muita gente está pulando de cabeça
nessa onda e muitas vezes sem se dar conta de que há
contradições. A mais importante é que,
apesar do modismo, tatuagem não sai do corpo e, ao contrário
de uma etiqueta, não pode ser trocada a cada estação.
Para cravar um desenho no corpo, a máquina de tattoo
passa horas arranhando a epiderme, a camada superficial da pele,
para introduzir a tinta na derme, 4 mm adentro (veja quadro).
E isso dói. Porém, é exatamente a dor,
uma marca desse momento, que continua a inspirar nos jovens
liberdade e transgressão. O que leva, inevitavelmente,
à pergunta: por que as pessoas se tatuam? Os motivos,
como veremos, são de toda ordem há milhares de
anos. Pois engana-se quem pensa que tatuagem é coisa
de gente moderna. Na verdade, o ato de marcar o corpo é
tão antigo quanto a humanidade.
Urucum
e jenipapo
O jornalista carioca Toni Marques, 16 tatuagens, tornou-se um
especialista no assunto ao escrever o livro O Brasil Tatuado
e Outros Mundos, onde relata uma evidência concreta de
tatuagem na pré-história: o chamado Homem de Gelo,
um corpo congelado, encontrado na Itália em 1991 e datado
de 5.300 anos a.C. "Ele tinha tatuagens na região
lombar, no joelho esquerdo e no tornozelo direito", observa.
A tatuagem também deixou vestígios no Egito antigo,
na Mongólia de 400 a.C., nas civilizações
pré-colombianas do início da era Cristã
e até nos autos da Inquisição, pela qual
foi banida. Mas seu principal nicho foram as ilhas da Polinésia,
no sul do Oceano Pacífico, onde tribos como a dos maori
usavam ossos pontiagudos para tatuar o corpo inteiro, inclusive
o rosto. Para os maori, desenhar a pele era um ritual de transformação
do menino em guerreiro, ou da menina em esposa. "Os marinheiros
que exploraram a região, no século 18, ficaram
tão encantados que aderiram ao costume e, aos poucos,
foram transportando a tatuagem para os portos europeus",
relata Toni.
No Brasil, a história é parecida. Urucum e jenipapo
forneciam as tintas introduzidas na pele dos índios,
muito antes da chegada dos portugueses. Mas a tatuagem só
se disseminou no século 19, com a abertura dos portos
e a mistura de marinheiros estrangeiros com a população
das cidades litorâneas. "O fascínio dos desenhos
trazidos por esses marinheiros seduziu as prostitutas, seus
fregueses brasileiros e o submundo do crime", destaca o
pesquisador. Esse público, na verdade, só começou
a mudar quando os surfistas do Rio de Janeiro voltaram a usar
tatuagem, na década de 1970.
Costume
ainda choca
U m deles, José Artur Machado, o Petit, ficou famoso
na canção Menino do Rio, de Caetano Veloso, por
causa de um certo dragão tatuado no braço esquerdo.
Não é à toa, portanto, que a tatuagem ganhou
estigma de marca marginal. Para piorar, ela serviu para distinguir
escravos, fascínoras e até os judeus nos campos
de concentração da Segunda Guerra. Por isso, hoje,
muitos pais ainda se descabelam quando um filho manifesta a
vontade de se tatuar, ou, pior, se leva direto a novidade para
dentro de casa sem pedir autorização. O pai da
tatuadora Cláudia Macá, por exemplo, classificava
como ignorância a opção da filha em fazer
a primeira florzinha no braço esquerdo, aos 19 anos.
Mal ele sabia que Macá se tornaria uma das mais renomadas
profissionais do país e, aos 33 anos, colecionaria outras
sete imagens pelo corpo. O designer têxtil Jacques Hei,
de 35 anos, enfrentou uma situação semelhante
ao fazer um arco-íris com uma gaivota no braço,
há 17 anos. "Meu pai ficou dois meses sem falar
comigo, enquanto minha mãe insistia em dizer que aquilo
era coisa de presidiário", lembra.
Para as novas gerações, esse quadro não
mudou muito. Primeiro porque, no Rio de Janeiro e em São
Paulo, leis estaduais proíbem a tatuagem e o piercing
- brincos colocados no corpo - para menores de 18 anos, mesmo
com a autorização dos pais. E até para
quem já se emancipou, muitas vezes não é
fácil assumir os próprios desejos. Daniela Bagnatori,
de 20 anos, a moça da capa de GALILEU, com o enorme peixe
tatuado sobre as costelas, fez sua opção há
seis meses, mas ainda não teve coragem de mostrá-la
ao pai. "Não sei se ele vai entender que fiz a tatuagem
para minha realização pessoal e não por
agressão", hesita Daniela.
De fato, é difícil compreender os motivos que
levam uma pessoa a fazer de sua pele moldura para um desenho
eterno. Os psicólogos evitam generalizações,
mas são unânimes em um ponto: tatuagem é
uma questão de identidade. "A pessoa faz para representar
a sua individualidade", explica o psicólogo Miguel
Perosa, professor da Pontifícia Universidade Católica,
PUC, de São Paulo. Segundo ele, o desenho escolhido tem
sempre a ver com o íntimo de cada um e pode ser uma mensagem
pessoal ou coletiva. "Através da tatuagem, a pessoa
quer dizer algo de si mesma, tanto para pertencer a um grupo
que usa esse tipo de sinal, como para se diferenciar da sociedade",
afirma o professor.
Na Itália, os especialistas no estudo da tatuagem vão
mais longe. Investigando o inconsciente dos tatuados, o departamento
de Psicologia da Universidade de Milão está classificando
os desenhos e seus significados.
O dragão
da criação
O dragão, por exemplo, preferência absoluta entre
os italianos, remete à criação humana e
testemunha o desejo de auto-afirmação. Da mesma
forma, os locais escolhidos para a tatuagem também estão
sendo catalogados. Pesquisas revelam que tatuar o tronco denota
capacidade de decidir. Se a escolha cai sobre os braços,
significa que o indivíduo está atravessando uma
fase de lenta maturação. Pessoas infantis e pouco
reflexivas preferem as pernas.
Enquanto para a psicologia a especialidade é nova, para
a medicina a tatuagem é objeto de estudo há mais
tempo. Desde a década de 1950, os cirurgiões tentam
amenizar a angústia de quem se arrepende. A última
palavra para eliminar a tinta tatuada é um aparelho chamado
Photoderm, que se baseia no princípio das máquinas
a laser dos anos 70 (veja quadro). "Aos poucos, a luz emitida
pelo Photoderm quebra a tinta em pequenos fragmentos, que são
removidos naturalmente pelas células de defesa do corpo",
explica o cirurgião plástico Cláudio Roncatti.
É um tratamento demorado e caro. "O aparelho representa
um avanço, mas não a solução definitiva",
avisa o médico. "Normalmente, sobram vestígios
de pigmento na região, embora ninguém diga que
era uma tatuagem." Em resumo: ainda não há
um método que elimine totalmente uma tatuagem.
"O
corpo é meu"
O estudante Paulo Guilherme de Souza Campos, de 23 anos, sabe
bem como é isso. Arrependido típico, ele recorreu
ao Photoderm para se livrar da sereia tatuada em suas costas
há cinco anos. "Nos últimos tempos, não
me sentia mais à vontade sem camiseta. Sempre achava
que alguém estava me olhando", justifica. Hoje,
ele admite que se tatuou por impulso, quando um colega desistiu
do horário marcado em um estúdio. "Assumi
o lugar dele por rebeldia, queria provar que era independente,
dono do meu corpo", lembra o rapaz. Outro arrependido,
o empresário Carol Simões de Figueiredo Júnior,
de 31 anos, foi vítima da chamada tatuagem romântica.
Ao lado da rosa tatuada no antebraço aos 18 anos, ele
decidiu colocar a inicial do nome de uma namorada. Embora tenha
escolhido um ideograma japonês, acabou revelando o significado
para a namorada seguinte, que exigiu a remoção.
"Mesmo que ela não implicasse, mais cedo ou mais
tarde eu mesmo não suportaria carregar aquela lembrança",
admite Carol, que retirou com uma cirurgia o pedaço de
pele marcado pela homenagem.
Também são comuns as desistências forçadas.
A tatuadora Macá já foi procurada por uma cliente
desesperada que queria eliminar a estrela tatuada no pescoço,
poucos dias antes, para se candidatar a um cargo em uma empresa
aérea. O cirurgião Roncatti está acostumado
a atender casos assim. "Embora as empresas não assumam
a resistência, sabe-se que a tatuagem e o piercing são
fatores de objeção numa entrevista de recrutamento",
garante Lizete Araújo, vice-presidente da Catho, uma
firma de consultoria em recursos humanos, especializada na recolocação
de executivos. Segundo Lizete, somente setores de atividades
mais despojadas, como moda, publicidade e turismo, aceitam melhor
ousadias desse gênero. "Normalmente, as empresas
adotam os valores da sociedade, que, de maneira geral, ainda
rejeita esses adereços", raciocina Lizete. Por isso,
o preconceito também tem que pesar na balança
antes da decisão final.
"Coisa
de maconheiro"
O leiloeiro oficial Marcelo Valland, de 31 anos, já sofreu
por causa da sereia tatuada em seu antebraço aos 18 anos,
em homenagem à forte ligação que tem com
o mar. "Na época, fui discriminado pelos jogadores
do meu time de rúgbi, que achavam tatuagem coisa de homossexual",
lembra. Treze anos depois, Marcelo ainda oculta sua tatuagem
sob o terno para evitar constrangimentos profissionais. "Evito
mostrá-la no ambiente de trabalho para não ser
mal interpretado, pois, ainda hoje, muita gente acredita que
tatuagem é coisa de maconheiro e de ladrão",
salienta. Alessandra Jeszenszky, de 24 anos, tem problemas semelhantes
com seus piercings. Com uma agravante: os do rosto, ela não
tem como esconder. "Você se acostuma a ser alvo da
atenção alheia, mas, às vezes, é
difícil ignorar as pessoas que olham e dizem: ai, que
nojo!".
Quem quer testar o tamanho desse impacto, pode optar pela tatuagem
temporária e pelo piercing magnético. No caso
da tatuagem, trata-se da aplicação de um preparado
de hena, uma tintura indiana usada para tingir cabelos. A moda,
chamada mehandi, existe na Europa há cinco anos e foi
copiada de rituais indianos de mais de 10 mil anos. Os desenhos
lembram uma renda e, ao contrário da tatuagem tradicional,
são aplicados sobre a pele, como se o tatuador estivesse
confeitando um bolo. "Depois de uma hora, a pasta seca
e cai, deixando o desenho fixado na pele por, pelo menos, uma
semana", explica Macá, que trouxe a técnica
para o Brasil no ano passado. Já os falsos piercings,
importados de Londres e Nova York, ficam presos por um ímã,
que sustenta o brinco de metal colocado no nariz ou na boca.
A grande vantagem é que não requerem furos e podem
ser retirados a qualquer momento.
Outra novidade dos tempos modernos é a tatuagem virtual.
Um dos pioneiros nesse campo é o tatuador Sérgio
Jardim, que tem estúdio em Natal, no Rio Grande do Norte.
"Se a pessoa não está segura, capturo ângulos
de seu corpo com uma câmera de vídeo, transfiro
estas imagens para dentro do computador e sobreponho o desenho
que ela quer tatuar", explica Sérgio. "O que
se tem na tela é uma idéia bem nítida do
resultado final", garante. Para completar, o tatuador mantém
um site na Internet onde se pode assistir a uma sessão
de tatuagem on-line, caso ele esteja atendendo alguém.
Mais ainda: Sérgio está preparando um CD-ROM didático
para transferir as novas técnicas para outros tatuadores.
O banho de tecnologia indica que a tatuagem tem tudo para sobreviver
ao próximo milênio. Carregando, porém, o
velho tabu: uma vez traçada, ela continua sendo eterna,
como os diamantes.
O
problema é a retirada
Colocar a marca é fácil, difícil, praticamente
impossível, é removê-la. Nos anos 50,
os médicos cortavam a área tatuada e costuravam
as bordas. Depois, passaram a lixar a pele, até atingir
a derme, a região onde os pigmentos ficam alojados.
Nas duas situações, restava uma desagradável
cicatriz no lugar da tatuagem. Nos anos 70, surgiu uma nova
esperança para os arrependidos: o raio laser, que
quebra os grânulos de pigmento em partículas
10 vezes menores. "Assim, os macrófagos - células
de defesa do corpo - conseguem reconhecer os fragmentos
de tinta, como se fossem células invasoras, e passam
a digeri-los", explica o cirurgião plástico
Claudio Roncatti. Os primeiros resultados surgem após
quatro sessões, no mínimo. O Photoderm, um
aparelho dos anos 90, usa o mesmo princípio do laser,
com duas vantagens: "Dispensa anestesia e pode ser
controlado segundo o tipo de pele, para evitar lesões",
conclui. |
Ferro
e fogo
Nova York, a capital da tatuagem, reeditou o mais radical
de todos os estilos, o branding - uma marca feita a ferro
quente que, em outros tempos, já foi usada em escravos
e criminosos. É como marcar gado: usa-se um símbolo
em brasa, que queima a pele. Misi Kárai, um húngaro
que coloca piercing em São Paulo, faz branding com
um bisturi aquecido. O tatuador Fernando Franceschi, de
24 anos (acima), aderiu à tendência. |
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O
piercing também tem origem tribal
O body piercing - brinco colocado em várias partes
do corpo - divide opiniões entre os adeptos da
tatuagem: alguns o encaram como complemento dos desenhos
espalhados pela pele, outros acham que é um adorno
de outra ordem. Para o jornalista Toni Marques, estudioso
dessa moda, o piercing choca mais a sociedade. "Depois
do advento, a tatuagem até perdeu um pouco do impacto",
opina. Embora tenha se difundido nos anos 80, o piercing
também era um adereço tribal. Foi adotado
nas grandes cidades como símbolo de modernidade,
mas traduzido pelo senso comum como sinônimo de
agressividade. "Assim como a tatuagem, ele também
é uma representação da individualidade,
uma tentativa de sair da identidade familiar para a grupal",
explica o psicólogo Miguel Perosa. Porém,
ao contrário da tatuagem, o ritual de colocação
é bem mais simples. "Geralmente, usa-se uma
agulha com um cateter (tubo de plástico) para perfurar
a pele. O tubo fica para dar passagem à alça
da jóia, e depois é retirado", explica
o enfermeiro Misi Kárai, que coloca piercings há
oito anos. "Em lugares sensíveis, como os
mamilos, usa-se anestesia local injetável",
observa. As jóias são colocadas a 2 mm de
profundidade. As peças mais comuns são de
aço cirúrgico, mas também há
versões em pedra, vidro, acrílico, osso
e madeira. Quando o piercing é retirado, na maioria
das vezes, o furinho cicatriza e fecha.
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Anote
Para ler
O Brasil Tatuado e Outros Mundos, de Toni Marques
The Customized Body, de Ted Polhemus |
Na
Internet
www.tattoos.com
www.summer.com.br/~tattoo |
A
serviço da beleza
Além de adorno, a tatuagem também pode servir
para disfarçar pequenos defeitos. A dentista Delaine
Pires Roman, de 30 anos (ao lado), por exemplo, resolveu
desenhar um beija-flor azulado sobre a cicatriz de uma operação
de apêndice. "Ele escondeu uma
marca incômoda", conta ela, que já possuía
uma rosa vermelha tatuada nas costas. Algum tempo depois,
Delaine repetiu a dose para esconder uma falha do lábio
superior. "Recorri à dermopigmentação,
também chamada de maquiagem definitiva, que usa a
mesma máquina e pigmentos da tatuagem comum",
conta. Satisfeita com o resultado obtido, Delaine aconselha
tons suaves, bem perto do natural, pois a remoção
requer o mesmo empenho de uma tatuagem comum. |
Os
segredos da personalidade gravados no corpo
Pesquisadores da Psicologia da Tatuagem, disciplina estudada
nas universidades italianas La Sapienza, de Roma, e Católica,
de Milão, definem o significado das tatuagens mais
comuns.
Escorpião
Escolhido por pessoas racionais, mas destrutivas quando
contrariadas
Ideograma japonês
Representa índole refinada, bom gosto estético
e fidelidade no amor
Coração em chamas
Típico de quem considera o outro propriedade privada
Tubarão
Opção de pessoas curiosas e solidárias
Dragão Simboliza
a energia primordial e representa o desejo de auto-afirmação
Tribais
Motivos abstratos escolhidos por pessoas que precisam
se diferenciar
Lagartixa
Remete ao desejo de autocontrole e contenção
dos sentimentos |